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A Filha do Arcediago Terceira Edição   By: (1825-1890)

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A FILHA DO ARCEDIAGO

FILHA DO ARCEDIAGO

POR

CAMILLO CASTELLO BRANCO

TERCEIRA EDIÇÃO

PORTO EM CASA DE CRUZ COUTINHO EDITOR 18 E 20 CALDEIREIROS 18 E 20 1868

PORTO TYPOGRAPHIA DO JORNAL DO PORTO rua Ferreira Borges, 31

Leitores! Se ha verdade sobre a terra, é o romance, que eu tenho a honra de offerecer ás vossas horas de desenfado.

Se sois como eu, em cousas de romances (que no resto, Deus vos livre, a vós, ou Deus me livre a mim) gostareis de povoar a imaginação de scenas, que se viram, que se realisaram, e deixaram de si vestigios, que fazem chorar, e fazem rir. Esta dualidade, que caracterisa todas as cousas d'este globo, onde somos inquilinos por mercê de Deus, é de per si um infallivel symptoma de que o meu romance é o unico verdadeiro.

Eu sou um homem, que sabe tudo e muitas outras cousas. Não espreito a vida do meu proximo, nem ando pelos salões atraz d'uma ideia, que possa estender se por um volume de trezentas paginas, que, depois, vil espião, venho vender vos por 480 reis. Isso, nunca.

Tudo isto que eu sei, e muito mais que espero saber, é me contado por uma respeitavel senhora, que não vai ao theatro, nem aos cavallinhos, e que tem necessidades organicas, mas todas honestas, e, entre muitas, é predominada pela necessidade de fallar onze horas em cada dez. Desde que tive a ventura de conhecel a, não invejo a sorte de ninguem, porque vivo debaixo das mesmas telhas com esta boa senhora, e posso satisfazer a mais imperiosa necessidade da minha organisação, que é estar calado. É que não podemos fallar ambos ao mesmo tempo.

E, depois, a sua conversação, escassa d'arrebiques, e despretenciosa, abunda em riquezas naturaes, em thesouros impagaveis para o escriptor publico, em estudos sociaes adquiridos no testemunho de factos da vida, que não vieram ás locaes do jornalismo, porque a imprensa, ha poucos annos que denuncia os casamentos, os obitos, e os suicidios.

Ingrato seria eu, se não significasse aqui, com toda a cordialidade de que sou susceptivel, o meu reconhecimento á dita pessoa, que promette elevar me á importancia de escriptor veridico, n'um genero em que todos os meus collegas mentem sempre.

No momento infausto em que os sêllos do tumulo me fecharem este livro do passado, obliterar se ha a fecunda veia de romancista, d'onde tenho havido uma barata immortalidade para mim, e para a minha collaboradora.

O publico, maravilhado da minha esterilidade, dirá então que os meus romances eram d'ella; e um nome, hoje obscuro, será exhumado do esquecimento para quinhoar da gloria dos escriptores fêmeas d'esta nossa terra tão escassa ainda bem d'esse contra senso.

A FILHA DO ARCEDIAGO

CAPITULO I

Em 1815, um dos mais abastados mercadores de pannos da rua das Flores na cidade do Porto, era o senhor Antonio José da Silva. E a 23 d'agosto, do mesmo anno, o negociante da rua das Flores que mais suava, e bufava afflicto com a calma, era o mesmo senhor Antonio José da Silva. O senhor Antonio, como os seus caixeiros o chamavam, tinha razão para suar. As bochechas balofas e tremulas, dilatadas pelo calor do estio, ressumavam lhe um succo oleoso, que descia em rêgos pelos tres rofêgos da barba, e vinha adherir a camisa ás duas grandes esponjas, que formavam os seios cabelludos do nosso amigo attribulado.

O senhor Silva inquieto, e resfollegando como um hippopótamo, passeava no seu escriptorio. O seu traje era muito simples: andava de cuecas, e alpercatas de estôpa com sola de cortiça. Este vestido, com quanto singelissimo, e o primeiro talvez que se seguiu ao que trajou Adão no Paraizo, dava lhe ares d'um sátyro voluptuosamente gordo.

O negociante representava cincoenta e cinco annos, bem conservados. No ôlho direito tinha muita vida; o esquerdo, porém, n'esta occasião tinha um tersolho, e inflammado, de mais a mais, pelo calor.

Além do dito, o senhor Silva estava soffrendo um segundo tersolho no espirito. Era uma paixão, uma paixão d'alma, a mocidade na velhice, essa ancia impotente d'um coração, que quer romper os tecidos atrophiados de cincoenta e cinco annos para dar quatro pulos em pleno ar... Continue reading book >>




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