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A Fome de Camões   By: (1848-1921)

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First Page:

A FOME DE CAMÕES

Gomes Leal

A FOME DE CAMÕES

(POEMA EM 4 CANTOS)

LISBOA

EDITORES

Empreza Litteraria Luso Brazileira de A. Souza Pinto e Livraria Industrial de Lisboa & C.ª

MDCCCLXXX

1880 Typ. Occidental, rua da Fabrica 66 Porto

CANTO PRIMEIRO

TRAGEDIA DA RUA

Quando no mundo o Genio abandonado expira á fome e ao frio, indignamente, um livido remorso ensanguentado sacode o mundo tenebrosamente. Como o arrepio d'um terror sagrado, alguma cousa grita intimamente: como uma voz terrivel que suspira nas cordas vingativas d'uma Lyra.

E essa Lyra é só feita d'ameaças. Essa Lyra é só feita de vinganças. Essa Lyra só falla de desgraças, d'antigos crimes, de crueis lembranças. Essa Lyra espedaça e quebra as taças, calla os festins, e faz parar as danças, e essa Lyra ai! da tragica innocencia é a Lyra terrivel da Consciencia.

E a Lyra diz: O que fizeste, ó mundo! das grandes almas unicas, sagradas, das grandes frontes d'um sonhar profundo que eram as frontes as mais bem amadas? O que fizeste d'esse abysmo fundo de vontades mais rijas do que espadas, d'esses simples e santos corações que faziam chorar as multidões?

O que fizeste d'essas linguas d'ouro que sabiam pregar como os prophetas? Como enxugaste o seu comprido chôro? Como arrancaste as ponteagudas settas? O que fizeste, ó mundo! do thesouro que vós homens mortaes chamais poetas: mas cujo nome d'harmonias bellas só o sabem as Cousas e as Estrellas?

Deitaste ao lodo, á rua, e aviltamento esses que adora a Natureza inteira, esmagaste entre as pedras o talento, os seus craneos quebraste, na cegueira! As suas cinzas espalhaste ao vento! Profanaste os seus louros na poeira! E repousam sem lastimas nem lousas os que viam as lagrimas das Cousas!...

Por isso me ouvirás em toda a parte como um soluço e um grito vingador, n'uma alta torre, atraz d'um baluarte, entre os festins, nas convulsões do amor. Na paz, ou levantando o estandarte da guerra, escutarás a minha Dôr. Por que eu, ó mundo! guarda o na lembrança, Eu sou a Lyra, e a minha voz Vingança!

E o mundo escuta, indefinidamente, a voz da Lyra a protestar terrivel. Ouve a na sombra, ou pelo sol poente, se o vento dobra o cannavial flexivel, ouve a nos sonhos, ouve a intimamente, n'uma continua musica inflexivel, até que emfim vencido n'esta liça o mundo clama: Faça se a Justiça!

Era uma noute livida e chuvosa, ermas as ruas, ermas as calçadas. Nada cortava a solidão brumosa, nem ais d'amor, nem gritos de facadas. Das nuvens colossaes acastelladas sómente a meia lua silenciosa, boiava em morto ceu ermo d'estrellas, como um navio que perdeu as vellas.

Quem é que cruza á chuva e á ventania, á meia noute, as ruas solitarias? És tu santa Miseria, que de dia foges da luz do Sol, o pai dos párias? Ou és tu Fome ou Vicio, que sem guia, vaes nas noutes sem lua, mortuarias, provocar o Deboxe e os estrangeiros á baça luz dos tristes candeeiros?

Ó Destino! ó Destino! eu sei a historia de muitas das tragedias soluçantes, de muito nome que esqueceu a Gloria, de muitos prantos que cairam d'antes! Sei que riscam teus dedos flammejantes, como uma sina má, muita memoria, e que nada ha maior e mais escuro do que o brilhante e o bronze do teu muro!

Mas não quero contar o drama agora do Brilhante, do Leque, e do Farrapo, da meretriz que no bordel descóra, do amor do Charco, do histrião, do sapo; nem a farça de sangue a toda a hora, do Ouro e do Velludo o rico trapo, nem a sina immoral sinistra e crua da historia diabolica da Rua... Continue reading book >>




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