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Nas Cinzas   By: (1828-1872)

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Notas de transcrição:

Este texto é uma transcrição do original de 1875, tendo se actualizado a grafia para a variante europeia da língua portuguesa (pré acordo ortográfico de 1990).

Foram corrigidos alguns erros tipográficos evidentes.

NAS CINZAS

POR

GONTRAN BORYS

TRADUÇÃO DE

L. C. M.

C & C

LISBOA EMPRESA EDITORA, CARVALHO & C.ª RUA LARGA DE S. ROQUE, 100

NAS CINZAS

POR

GONTRAN BORYS

Imprensa nacional 1875

NAS CINZAS

POR

GONTRAN BORYS

TRADUÇÃO DE

L. C. M.

LISBOA EMPRESA EDITORA, CARVALHO & C.ª RUA LARGA DE S. ROQUE, 100

I

Se perguntásseis hoje diante de dez pessoas quem é André Sauvain, nove delas achariam ridícula a vossa ignorância, e a décima não hesitaria em soltar uma gargalhada. A ninguém é permitido desconhecer uma gloria nacional: entretanto ninguém conhecia há sete anos aquele nome, tão celebre agora.

Nessa época, ainda André Sauvain não era um pintor ilustre. Ocupava, ao cimo da rua dos Mártires, um rez de chaussée , tão próprio pela humidade a criar cogumelos, como pela escuridão a inspirar tragédias. A habitação do jovem pintor limitava se a uma só casa, que acumulava as funções de sala, quarto de cama, atelier e refeitório. E nem por isso ele passava pior do que se residisse em sumptuoso palácio.

André era um rapaz vigoroso, com músculos de aço, esbelto como um vime e magro como um gato em Abril. O seu porte altivo, bigode castanho e retorcido, pêra aguçada, cabelo alourado e abundantíssimo, assemelhavam no a alguns retratos de Van Dyck por forma, que não causaria estranheza ver pender lhe ao lado uma espada. E com efeito a blusa rafada, que trajava, ia tão bem à sua figura nobre e elegante, como um gibão do melhor veludo.

Numa bela e clara manhã de Dezembro André Sauvain acabava de retocar um Faust au sabbat : recuando um pouco para melhor avaliar o efeito do seu quadro, e erguendo por acaso os olhos, foi testemunha de um prodígio. Através das vidraças do seu quarto descobria se parte de uma casa esplendidamente iluminada pelos raios do sol. Aquele prédio era o constante pesadelo do pintor. Segundo os caprichos da atmosfera, ora reflectia execrável claridade no atelier , ora lhe interceptava completamente a luz. André lançava lhe pela milésima vez a sua maldição, quando de repente viu abrir se uma janela, e aos ouvidos do mancebo chegaram as últimas notas de uma cançoneta entoada por voz fresca e harmoniosa: não tardou que a essa janela se mostrasse uma cabeça de mulher, inclinando se para fora. Aquela cabeça arrancou ao pintor um grito de admiração e, bem que nunca a tivesse visto, reconheceu a imediatamente.

Há no Louvre uma miniatura de Fragonard, do tamanho de uma peça de 40 francos, que é a imagem de uma menina de quinze anos, rosada, loura, com a risonha expansão da inocência a iluminar lhe o rosto. A boca é uma cereja: deseja se colhe la com os lábios. A brisa de maio brinca travessa com os bastos anéis dos seus cabelos doirados. Nos seus olhos negros, de extraordinária viveza, crepita a jovialidade. É a primavera, é a alegria, é a mocidade em flor. Pois, embora o não creiam, esse rosto encantador, emoldurado pela janela que se abrira fronteira ao atelier de Sauvain, era o original daquela miniatura, feita havia mais de cem anos... Continue reading book >>




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