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O Arrependimento   By: (1825-1890)

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O ARREPENDIMENTO.

O ARREPENDIMENTO.

ROMANCE

Em tempos da minha mocidade costumava visitar a miudo uma boa velha, minha visinha, que me honrava com a sua estima e amisade. Humildemente confesso que não ha sociedade mais deleitosa e agradavel, do que a de uma mulher que soube envelhecer. A sua conversação instructiva e divertida, é um inesgotavel thesouro de lembranças, anecdotas, observações chistosas e reflexões circumspectas, é finalmente uma revista do passado.

D. Mafalda, deixem me assim chamar lhe, juntava á amenidade da conversa, a do caracter, que era brando e indulgente.

Quando tinha occasião de ir passar uma noite com ella, parecia me que as horas voavam ligeiras e que corriam mais rapidas, do que quando as gastava a distribuir finezas e galanteios ás mais formosas rainhas dos mais brilhantes salões. Era sempre com vivo pesar que a via apontar para o relogio, indicando me que a hora de me retirar tinha chegado, e voltava a minha casa com o espirito mais rico, e o coração satisfeito e melhor.

A historia que vou contar vos, minhas caras leitoras, foi me dita por D. Mafalda n'um d'estes serãos em que vos fallei.

Era n'uma bella noite de Junho; fui encontral a sentada na sua cadeira á Voltaire, tendo a seus pés, deitado em um cochim, o seu cãosinho querido; os olhos tinha os semi abertos, um sorriso nos labios, e parecia respirar com prazer a aragem, que, embalsamada pelas flôres do jardim, se coava pela janella meia aberta. Quando cheguei junto d'ella vinha indignado por que um de meus parentes tinha sido victima d'um abuso de confiança; contei lhe o succedido, e no calor da narração não poupei ao culpado as maiores imprecações, nem deixei de lhe dizer que desejava fazer lhe todo o mal possivel.

Devagar, meu querido amigo me disse ella não o julgava tão irrascivel, nem que tivesse tão pouca caridade para com o proximo. Sabe lá, se, com a vida, não tiraria ao culpado o merito de para o futuro se poder rehabilitar pelo arrependimento, e se o momento em que lhe infringisse o castigo não seria o destinado por Deus para esse arrependimento?

Eis ahi, minha cara visinha, uma doutrina, permitta me a expressão, um pouco subversiva da ordem social.

Deus me defenda me replicou de querer que o culpado não seja castigado, e que a sociedade fique indefeza dos crimes que um seu membro praticou contra ella; quiz dizer sómente que devia deixar ás leis o cuidado de castigar o delinquente, e que o meu querido amigo, não devia, como individuo, fechar assim desapiedadamente o coração a todo o sentimento de commiseração por um desgraçado e infeliz, no coração do qual talvez ainda bruxelei algum clarão de virtude, que uma occasião favoravel e propicia, que se apresente, ainda póde despertar, e fazer com que esse membro da sociedade, que julga inutil, se torne bom e aproveitavel.

Como eu respondesse a isto, fazendo um d'estes movimentos de cabeça, que são um protesto mudo e respeitoso, ella acrescentou:

Está com paciencia para me aturar ouvindo uma historia, pois que ainda temos algumas horas?

Não recusei: uma historia era uma fortuna para combater a exaltação d'espirito em que estava.

D. Mafalda principiou assim:

Emilio da Cunha era o mais velho de tres irmãos, dos quaes, o mais novo, vivia ha muitos annos no Rio de Janeiro, onde tinha alcançado fortuna. O segundo nunca deixou o Porto, sendo sempre infeliz nos seus commettimentos e especulações. Emilio da Cunha, á custa de muito trabalho e economias, pôde alcançar uma fortunasinha, que lhe permittia esperar com socego, o momento de descançar da vida laboriosa em que tinha vivido.

Uma quarta pessoa completava esta familia, que era uma irmã, que tendo seguido seu marido á India, para onde elle tinha sido despachado, e não vindo nenhum d'elles a figurar n'esta minha historia, não lh'os recordarei mais.

Aconteceu que o irmão de Emilio da Cunha, que residia no Porto, por uma d'estas catastrophes que occasionam os jogos de bolsa, falliu... Continue reading book >>




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