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O Livro de Elysa Fragmentos   By: (1819-1890)

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First Page:

JOÃO DE LEMOS

O

LIVRO DE ELYSA

Fragmentos

COIMBRA

Imprensa da Universidade

1869

ADVERTENCIA

O Ill.^mo e Ex.^mo Sr. João de Lemos Seixas Castello Branco dignou se conceder me licença para publicar este escripto, já impresso na Revista Academica , jornal litterario e scientifico publicado nesta cidade em 1848.

Coimbra, 24 de Agosto de 1869.

J. Mesquita.

O LIVRO DE ELYSA

FRAGMENTOS

I

Elysa! Vou escrever um livro, mas um livro só para ti.

Ha de ser a traducção do pensamento revoando caprichoso por todo esse universo; ha de ser o monumento de uma longa saudade ingenhosa a não desperdiçar uma hora de remanso, a não sorrir nem suspirar senão comtigo; ha de ser um jornal do coração, de que tu serás o unico assignante, o unico leitor, e mais ainda o unico entendedor; ha de ser o desapertar incerto de ramalhetinhos da minha musa melancolicamente suave ou desesperada, ha de ser, emfim, o exercicio de uma devoção sublime do amor, será talvez o de um sacerdocio mysterioso, será de certo o de um martyrio de ausencia pungente.

Anjo! este livro deve ser muito amado por ti.

Quero o á cabeceira do teu leito, no teu toucador, na mesa do almoço, no cestinho da tua costura, nos teus passeios, no theatro, no baile, na côrte, na provincia, nos risos, nas lagrimas, na esperança, no desconsôlo, na vida, na morte. Em qualquer parte, em qualquer circumstancia que te encontres, abre o; abre o com a crença supersticiosa do amor e da ternura, que nelle beberás uma superstição amorosa e terna, para alegrar se e para gemer comtigo.

Anjo! este livro deve ser muito amado por ti.

Mas olha que este amor tão pedido para elle não consiste na presença inutil e preguiçosa, ou no habito indifferente e quasi que importuno, não: quero o sempre ao teu lado, quero o ainda mais, muito mais, ia dizendo unicamente no teu coração.

Elysa! é com este nome que me apraz escrever te, porque uma imprudencia, um acaso natural da minha vida de mancebo podia revelar com o manuscripto a palavra sacramental do meu segredo: o véo, que é demasiado diaphano aos meus olhos, será impenetravel aos de estranhos, e para ti é uma prova do meu egoismo ou soffreguidão, que te agradará.

O rei formosissimo de todos os astros nem se offende nem fica menos bello, porque a sombra ligeira de uma nuvem lhe passou pela frente.

Mulher typo! divindade talvez, ou sonho, ou illusão, ou feitiço, ou sombra, realidade, ou nada eu te amo! E sabes tu como é este amor? escuta:

Já viste duas pombas a devorar o espaço com as brancas azas de seda, correndo, voando, internando se por esse azul da cupula immensa, ou pousando á beira d'um lago de saphiras, ditosas na sua loucura, loucas na sua innocencia, innocentes nos seus carinhos? é o amor da pomba; é o meu amor.

Já viste ao pé dos corregos do inverno duas plantas indolentemente enroscadas, teimosas, viçosas, purissimas, cheias de gozo sem futuro, cheias de futuro no gozo? é o amor da planta; é o meu amor.

Já viste como a rosa, voluptuosamente desabrochada no tugurio verde da sua roseira, é, ao despontar da aurora, tão festejada, tão conversada, tão abraçada, tão beijada e tão adorada pela briza? é o amor da briza; é o meu amor.

Já viste uma criancinha, que se anda embriagando de folguedos no amanhecer da existencia, e que logo os foge, que os engeita desdenhosa, porque a mãe lhe choveu entre elles, e que desfeita em sympathia risonha, em meiguice, em requebros lhe entreabre os braços e lhe pula ao collo? é o amor da criancinha; é o meu amor.

Já viste essa mãe carinhosa errar anhelante, desalinhada, com os pés e os braços nus, o cabello desatado, os olhos em lagrimas, o peito a ondular lhe, os labios roxos e convulsos, a voz embaciada de suspiros, toda ella uma louca, ou antes um mysterio, toda ella resumida num sentimento indizivel, sublime, divino, a calcar abrolhos, a transpor abysmos, a galgar têsos, a olhar, a escutar, a inquirir homens e pedras, a consultar pégadas, a ferir o rosto com uma das mãos, a esmagar os seios com a outra, e tudo em busca do filhinho, que se lhe perdera? é o amor da mãe carinhosa; é o meu amor... Continue reading book >>




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