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O Regicida   By: (1825-1890)

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ROMANCES NACIONAES

ROMANCES NACIONAES

O REGICIDA

Romance Historico

por

CAMILLO CASTELLO BRANCO

LISBOA

Livraria Editora de Mattos Moreira E Comp.ª

68 Praça de D. Pedro 68

1874

A propriedade d'este livro, pertence a Henrique de Araujo Godinho Tavares, subdito brazileiro.

A

Francisco Martins de Gouvêa Moraes Sarmento

OFFERECE

o seu amigo mais devedor e agradecido

Camillo Castello Branco.

ADVERTENCIA

A urdidura d'este romance, que afoitamente denominamos historico , deu no'l a um manuscripto, que pertenceu á livraria do secretario de estado Fernando Luiz Pereira de Sousa Barradas.

O collector d'estes apontamentos, que a historia impressa, respeitando as conveniencias, omittiu, foi contemporaneo dos successos que archivou, pois escrevia em 1648.

De lavra nossa, n'este romance, ha apenas os episodios, que me sahiram ajustados e congruentes com os traços essenciaes da narrativa.

O REGICIDA

I

Antonio Leite, casado com Maria Pereira, e morador na villa de Guimarães, em 1634, era o cuteleiro de maior voga em Portugal.

N'aquelle anno, tinham um filho, de nome Domingos, com dezesete annos de edade.

Quizera o pai ensinar lhe a arte, que lhe dera fama e dinheiro. A mãe desejava que o rapaz fosse frade, consoante á vontade de seu irmão fr. Gaspar de Sancta Thereza, leitor apostolico de moral no convento de S. Francisco de Lisboa.

Ora o rapaz não queria ser frade nem cuteleiro: aspirava ardentemente um officio mais prestadio ao genero humano infermiço: queria ser boticario.

Era esperto o moço, não só porque appetecia ser boticario; mas porque realmente era agudo de intendimento, ladino, sedento de saber tudo e propenso a correr mundo, tendencia, na verdade, incompativel com a quietação da almejada botica.

Aos quinze annos, Domingos sabia latim, cursava philosophia de Aristoteles com um insigne mestre da ordem franciscana, e lia os cartapacios pharmaceuticos do frade boticario do mesmo convento.

Participou Maria a seu irmão fr. Gaspar a inclinação do filho. Respondeu o prudentissimo tio que lhe não torcessem a vocação, por quanto em todos os misteres podia um bom christão servir o proximo e ganhar o ceo. E, em prova do seu applauso, mandou ir o sobrinho para Lisboa, afim de lhe arranjar mestre que o exercitasse e approvasse.

Foi Domingos Leite para a capital, e entrou como praticante na botica do Hospital Real, sob direcção de Estevão de Lima, o primeiro mestre de pharmacia entre os quarenta e trez boticarios de Lisboa.

Ao cabo do primeiro anno, o professor não tinha que lhe ensinar. Domingos intendia e aviava as receitas com rara destreza. A estatistica mortuaria, se não tinha diminuido, tambem não tinha augmentado. Todavia, o habil praticante mostrava se descontente d'aquelle genero de vida, e de si comsigo resolvera encarreirar se para outro destino mais adquado a umas vaidades do mundo que lhe estonteavam a cabeça de mistura com o cheiro nauseativo das drogas moídas no gral.

Frequentava a famosa botica Luiz das Povoas, provedor da alfandega, que se comprazia de conversar com Domingos Leite em coisas de lettras, mormente poetas latinos. O rapaz revelou ao provedor o seu desgosto da botica, e rogou lhe que o empregasse na alfandega. Vê se que já em 1636 os bons talentos portuguezes, as aguias do genio, pairavam sobre as prêas alfandegueiras, como hoje em dia succede com tanto litterato que prefere á gloria de rimar ao ar livre a athmosphera aziumada dos armazens, e o fartum engulhoso da matullagem.

De feito, Luiz das Povoas accedeu á petição de Domingos Leite, nomeando o escrivão das «Fructas» com 40:000 reis annuaes de ordenado.

Volvido um anno, o escrivão das fructas confessou ao provedor que a sua vocação definida não era bem a alfandega; que semelhante vida lhe desagradava por monotona; que o seu espirito precisava de repasto mais poetico; em fim, que se sentia alli embrutecer com trabalhos em que a intelligencia andava grávida de cifras e cifrões, coisas indigestas para quem scismava em trechos de Virgilio ou estancias de Camões, quando a penna alinhavava a um tendeiro da rua de Quebra Costas a conta dos direitos da alfarroba ou do cacáo... Continue reading book >>




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