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O poeta Chiado (Novas investigações sobre a sua vida e escriptos)   By: (1849-1925)

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First Page:

O POETA CHIADO

ALBERTO PIMENTEL

O POETA CHIADO

(Novas investigações sobre a sua vida e escriptos)

Reverendo frei Chiado de Virtude grande imigo, sente tua alma comtigo e verás se estas desculpado d'isto que agora te digo.

AFFONSO ALVARES.

LISBOA

Empreza da Historia de Portugal.

Sociedade editora

LIVRARIA MODERNA

R. Augusta, 95

TYPOGRAPHIA

35, R. Ivens, 37

1903

I

As relações de amizade entre os vivos e os mortos são menos quebradiças e ephémeras do que as dos vivos uns com outros.

E a razão é facil de explicar: quem vai, não volta.

Os mortos não falam, não intrigam, não atraiçôam, não desmerecem, por isso, da estima e consideração em que uma vez os tomamos.

Affeiçôa se a gente a um escriptor, a um maestro , a um pintor ou a um estatuário, que morreu ha muitos annos ou ha longos seculos, e não deixamos apagar nunca a lampada do seu culto: colleccionamos lhe as obras sem olhar a dinheiro, por mais raras que sejam; conservamol as em grande veneração como thesouros que um avarento aferrolha a sete chaves; e estamos sempre promptos a combater de ponto em branco pela gloria e belleza de suas producções, quando apparece algum zoilo a menosprezal as com azedume.

E se nas relações com os vivos fazemos selecção do caracter d'elles para estabelecer convivencia e amizade, pouco nos importa a condição e procedimento dos mortos quando os estimamos em suas creações artisticas ou literarias com intransigente fanatismo.

O meu fallecido amigo visconde de Alemquer, que era um gentleman distinctissimo, primoroso em maneiras e acções, além de ser um biblióphilo digno de apreço e consulta, tomou tanto gosto pelas obras do padre José Agostinho de Macedo, que passou a maior parte da existencia a colleccional as por bom preço e a muito custo.

Comtudo, havia tanta disparidade entre o caracter de um e do outro, porque o auctor dos Burros foi o mais atrabiliario, inconstante e perigoso homem de letras de todo o nosso Portugal, que o visconde de Alemquer, se houvesse sido contemporaneo do padre José Agostinho, nunca teria podido ser seu amigo, nem seu defensor, nem jámais o quereria vêr em intimidade de portas a dentro.

Pela minha parte, tambem sou obrigado a confessar um similhante fraco, não pelo mesmo padre, mas por outro que, sob o ponto de vista da disciplina monastica e da dignidade sacerdotal, não valia mais. Refiro me ao franciscano Antonio Ribeiro o Chiado, que tambem despiu o habito e foi tunante irrequieto, sendo egualmente homem de letras.

Até 1889, anno em que logrei dar a lume as suas obras, quasi perdidas, e geralmente desconhecidas[1], custou me o Chiado bom trabalho e canceiras para resuscital o aos olhos do grande publico em toda a sua individualidade literaria.

[1] Obras do poeta Chiado , colligidas, annotadas e prefaciadas por Alberto Pimentel. Na officina typographica da Empreza Literaria de Lisboa, calçada de S. Francisco, 1 a 7.

D'então para cá não deixei de pensar n'elle a investigar lhe a biographia, que é das mais obscuras e complicadas, e a procurar aquellas de suas obras que até 1889 não consegui haver á mão por mais que as desejasse e buscasse.

Alguma coisa achei n'este lapso de onze annos. Não é tudo ainda. Mas não perdi o tempo, nem parei, porque me repugna a inercia, e porque, verdade verdade, tomei gosto ao Chiado, que não foi um vulto preeminente nas letras, mas que tem relevo como bohemio e dizedor, como trovista alegre e zombeteiro, farçante popularissimo, que a praça publica applaudia e que os escriptores mais notaveis não desconsideravam.

Outros meus contemporaneos teem consagrado todo o seu tempo ao Chiado rua, e talvez esses se riam de mim, que prezo mais o literato do que o Regent Street alfacinha.

Todavia, cumpre advertil os de que a rua lembra o escriptor, e de que foi elle, como julgo poder demonstrar agora, que deu nome á rua.

Eu já em 1889 pendia para esta opinião, comquanto, n'essa epocha, só houvesse encontrado vestigios de que a rua tinha aquella denominação no seculo XVIII... Continue reading book >>




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