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A Paranoia   By: (1857-1923)

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A PARANOIA

Julio de Mattos

ENSAIO PATHOGENICO SOBRE OS DELIRIOS SYSTEMATISADOS

...Ci iroviamo proprio faccia a faccia col nudo querito della pura pazzia.

EUGENIO TANZI

Lisboa Livraria Editora Tavares Cardoso & Irmão 5, Largo de Camões, 6

1898

A MEMORIA AMIGA DO PROFESSOR SOUSA MARTINS

PREFACIO

Ao passo que na sua maioria as doenças hoje estudadas pelos alienistas pertencem no fundo á pathologia interna, e só pelo predominio, mais apparente ás vezes do que real, dos seus symptomas psychicos se apropriaram a designação de mentaes , os delirios systematisados, esses, pela ausencia de caracteristicas lesões, pela falta de privativas causas determinantes e pela carencia de symptomas funccionaes objectivamente apreciaveis, constituem a verdadeira loucura, a psychose por excellencia, n'uma palavra, o proprio e irreductivel dominio da psychiatria.

Isto é dizer que a observação clinica não póde, ella só, determinar a génese d'estes delirios, pois que o confronto dos dados psychicos com os somaticos e etiologicos é, no caso sujeito, impraticavel.

Foi, todavia, pelo exclusivo exame do hypocondriaco, do perseguido, do ambicioso, que os alienistas buscaram até ha pouco surprehender a pathogenia dos delirios essenciaes. D'aqui o natural insuccesso dos seus trabalhos, melhor do que nunca evidenciado nos ultimos debates das sociedades psychiatricas de Paris e de Berlim, em que se não fez, por confissão dos proprios oradores, mais do que obscurecer e confundir o problema posto.

Por outro caminho, introduzindo no controvertido thema a criterio da evolução, seguiram, felizmente, na Italia contemporanea eminentes pshychiatras.

Inquiridos clinicamente os delirios essenciaes nos seus symptomas e na sua marcha, uma coisa resta ainda fazer para os interpretar: o estudo do delirante, considerado, não em si mesmo, como individuo, ou nos seus ascendentes immediatos, como membro de uma certa familia, mas anthropologicamente na sua vasta ancestralidade, como representante de uma especie em plena evolução.

Na sua marcha normal não segue o Espirito ao acaso, mas progressivamente por linhas de ideação desde muito entrevistas, senão inteiramente definidas; quem nos affirma que na sua marcha anormal elle não segue regressivamente pelas mesmas prefixas e inflexiveis linhas ideativas?

Se a dissolução da memoria se apagam primeiro os factos recentes e só depois os remotos, primeiro os nomes e só por ultimo os adjectivos e os verbos; se na dissociação da motricidade se perdem em primeiro logar os actos conscientes e só por fim os habituaes e instinctivos; se na desaggregação affectiva são os primeiros a fazer naufragio os sentimentos altruistas e só em derradeiro logar se extinguem os egoistas, é possivel e provavel mesmo que na esphera propriamente conceptiva a marcha pathologica se realise, ao menos em certos casos, n'um sentido tambem regressivo. Ora, segundo a escóla italiana, isto se dá, com effeito, nos delirios systematisados essenciaes, manifestação.

PRIMEIRA PARTE

Historia dos delirios systematisados

I PHASE INICIAL

De Areteu a Esquirol Confusão dos delirios systematisados com a melancolia A monomania intellectual e as suas fórmas depressiva e expansiva.

Se conheceram os delirios systematisados, não deixaram d'isso documento os escriptores que precederam a nossa era. É sómente a datar do primeiro seculo, em Areteu e Celio Aureliano, que encontramos incontestaveis e inequivocas referencias aos perseguidos.

Occupando se dos melancolicos, escrevia, com effeito, o primeiro d'estes medicos: «Muitos receiam que lhes propinem venenos; os seus sentidos adquirem um redobramento de finura e de penetração que os torna suspeitosos e de uma habilidade extrema em verem por toda a parte disposições hostis»[1]. Pelo seu lado, Celio Aureliano, fallando dos mesmos doentes, affirmava que muitos «experimentam uma desconfiança continua, um permanente receio de imaginarias armadilhas»[2]... Continue reading book >>




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