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Santarenaida: poema eroi-comico   By: (1768-1803)

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SANTARENAIDA

POEMA

EROI COMICO

DE

FRANCISCO DE PAULA DE FIGUEIREDO.

Dignum laude virum Musa vetut mori.

Horat. l. 4. O. 7.

COIMBRA.

Na Regia Officina Typografica.

ANNO M.DCC.LXXXXII.

Com licença da Real Meza da Commissaõ Geral sobre o Exame e Censura dos Livros.

ARGUMENTO.

Ouve em Coimbra um Taverneiro celebre, chamado Joze Rodrigues Santareno. Este em uma funsão que costuma fazerse pela Pascoa do Espirito Santo em Santo Antonio dos Olivais, estando muito suado pelo cansaso do caminho, fartouse de agua, com quem andava divorciado, avia largos anos, e dahi a poucos minutos caiu morto. Revestem se estas circumstancias Poeticamente, e cantase a sua morte.

SANTARENAIDA.

CANTO I.

Pois me pedes, ó Muza, instantemente, Que emboque a Eroica tuba altisonante, Que a cego Marte impele os peitos fortes; Eu que sem forsas teu carater serio Em versos graves sustentar naõ poso, Revestido da lépida Talia C'o a máscara atrevida, para ensaio

Cantarei o Varaõ famijerado, Que de Baco na guerra com Neptuno Arvorando do vinho os estandartes, Depois de ser trovaõ, ser raio acezo, Que espalhava terror no campo inteiro, Victima infausta foi por fims de contas Da vingansa cruel do Rei das aguas.

Axavase em tremendo consistorio Com toda sua Corte o undozo Jove. Nas intimas entranhas asoprado Pela Raiva vorás o consumia Um fogo abrazador: eraõ com ele As furias de Acheronte, e os vastos mares Ao som de sua vós mudos tremiaõ. Quando depois de longos improperios Com que a insana paixaõ dezabafára, De sima do alto solio adamantino Que sustentaõ seis Doricas colunas De maculado marmore brilhante Com bazes de oiro, e capiteis de prata, Esta fala do peito amargurado Soltou com grave acento aos seus Magnates.

Sempre eu, Vasalos nobres, de máo grado, Com justa indignasaõ olhei bramando, Que ouvese sobre a terra um petulante Que ouzase de meu povo impunemente Atacar os direitos mais antigos; Pois sendo desde muito autorizadas As nosas dôces aguas para entrarem As umanas guelas, e os arcanos Dos buxos penetrar dos omems grandes, Oje a termos as vêdes reduzidas De serem so de aprêso aos brutos rudes, E a despeito de minha autoridade Condenadas (oh dor!) das esterqueiras, Das imundas alfujas, das cloacas Á baixa vergonhoza lavadura. Conterme já naõ poso; este atrevido Provar do meu tridente as forsas deve. Este atrevido he Baco: eu pois pertendo Punir a sua audacia, guerrealo. Naõ ade este invazor protervo, e altivo Zombar ja mais de mim: torsese a verga Em quanto naõ he tronco: uma faisca Pasa a incendio vorás, se naõ se apaga. Mas vós aconselhaime, que eu naõ quero Que a paixaõ me alucine: o fim he este Porque oje vos xamei: dos boms conselhos Quazi sempre saõ filhos os acertos.

Bem como de um enxame susurrante O inquieto zumbido, se ouve n'aula O confuzo rumor dos Optimátes. Escutaõse discursos encontrados, Diferentes razoins, pensar diverso. Nisto o Padre Oceano revestido De Regia Magestade se levanta, E abrazado em furôr desta arte rompe.

Qual será de vós outros, que arrojado Se atreva a sustentar nesta asembleia, Á face do seu Rei, de toda a Corte, Que a meditada guerra naõ he justa? Se aqui algum está, se enfatuado Algum medir comigo as forsas tenta, A campo saia; os ultimos alentos C'os golpes da razaõ tirarlhe quero.

Quais mudos troncos Oceano vendo Pasmados da asembleia os membros todos, Com mais vivo calor prosegue irado... Continue reading book >>




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