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Versos de Bulhão Pato   By: (1829-1912)

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First Page:

VERSOS

DE

BULHÃO PATO

LISBOA

Typ. da Sociedade Typographica Franco Portugueza.

6, Rua do Thesouro Velho, 6.

1862

A HELENA

Lembras te, Helena, o dia em que deixámos O teu saudoso valle, e lentamente Pela elevada encosta caminhámos? O sol do estio ardente, Já não brilhava nos frondosos ramos Do arvoredo virente.

Chegára o fim do outono: a natureza, Sem ter os mimos da estação festiva, Nem aquelle esplendor e gentileza Que tem na quadra estiva, Na languida tristeza, Na luz branda e serena D'aquelle ameno dia, Que immensa poesia, E que saudade respirava, Helena!

Subindo pelo monte, Chegámos ao casal onde habitava A tua protegida, Aquella pobre anciã que se agarrava Aos restos d'esta vida! Assim que te avistou, ergueu a fronte Curvada ao peso de tão longa edade, Sorrindo nesse instante Com tal vida, que a luz da mocidade Parecia alegrar o seu semblante!

Estendeste lhe a mão, entre as mãos d'ella, Grosseiras pelo habito constante Do trabalho da terra, Queimadas pelo vento sibilante, E pelo sol da serra, Produzia essa mão graciosa e bella, Effeito similhante Ao que por entre o mato Produziria a rosa de Benguela, A flor mais alva e de mais fino trato!

Vinte annos tu contavas nesse dia; A fiel servidora, Era a primeira vez que não podia Deixar a casa ao despontar da aurora, E cheia de alegria Caminhar para o valle como outr'ora, Depôr uma lembrança em teu regaço, E unir te ao coração num meigo abraço!

Tu, na força da vida, Circundada de luz e formosura, Foste levar á pobre desvalida Os dons do lar paterno; Alegrar com teu riso de ternura Aquelle frio inverno!

Ao ver te com teus braços, Nos seus braços senis entrelaçados, A ventura nos olhos encantados, A inspiração na fronte deslumbrante, Afigurou me então o pensamento Ver um anjo descido dos espaços, D'aspecto fulgurante, Enviado por Deus nesse momento, Para animar os derradeiros dias De quem cançado do lidar constante Abre o seio na morte ás alegrias!

As lagrimas de gosto, Corriam cristalinas No rosto d'ella e no teu bello rosto! Como orvalhos do ceo aquelles prantos, Um brilhava na hera das ruinas, Outro na flor de festivaes encantos, Na rosa das campinas!

Quando voltaste a mim illuminava O teu semblante uma alegria infinda. Depois quizeste ainda Ir visitar a ermida que ficava No apice do monte: Firmaste te ao meu braço, e caminhámos. No esplendido horisonte Já declinava o sol quando chegámos.

Era singelo, mas sublime o quadro! Em roda o mato agreste; No meio a pobre ermida; ao lado d'ella Um secular cypreste, E sobre a cruz do adro Pendente uma capella De algumas tristes, desbotadas flores, Talvez emblema de profundas dores!

Oh! como tu, suspensa Num extasi ideal de sentimento, Expandias o livre pensamento Pela amplidão immensa! Como depois descendo das alturas Aonde te arrojára a phantazia, Parece que a tua alma me trazia Occulto premio de immortaes venturas!

Tanto expressava o teu olhar profundo, Que o ceo, a terra, o mar, quanto rodeia O homem neste mundo, Jámais me trouxe a idéa Do suppremo poder da Providencia Com tamanha eloquencia!

O sol quasi no termo Com um brando reflexo, Cingia a cruz do ermo Em amoroso amplexo! O rei da creação, o astro orgulhoso, Que enche a terra de luz, Tambem vinha prostrar se saudoso Aos pés da humilde cruz!

Era solemne e santo Naquell'hora supprema o teu aspecto! Nos labios a oração, no rosto o pranto, As mãos cruzadas sobre o seio inquieto, Os olhos postos na amplidão do espaço, E em derredor da frente Um luminoso traço A inundarte de luz resplandecente! ... Continue reading book >>




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