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A correspondência de Fradique Mendes memórias e notas   By: (1845-1900)

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First Page:

A CORRESPONDENCIA

DE

Fradique Mendes

Obras do mesmo auctor:

Revista de Portugal. 4 grossos volumes 12$000 As Minas de Salomão. 1 volume 600 Os Maias. 2 grossos volumes 2$000 O Crime do Padre Amaro. Terceira edição inteiramente refundida, recomposta e differente na fórma e na acção da edição primitiva. 1 grosso volume 1$200 O Primo Bazilio. Terceira edição. 1 grosso volume 1$000 A Reliquia. 1 grosso volume 1$000 O Mandarim. Quarta edição. 1 volume 500 A Illustre Casa de Ramires. 1 volume 1$000

No prelo:

A Cidade e as Serras.

Eça de Queiroz

A CORRESPONDENCIA

DE

FRADIQUE MENDES

(MEMORIAS E NOTAS)

PORTO LIVRARIA CHARDRON De Lello & Irmão, editores 1900

Pertence no Brazil o direito de propriedade d'esta obra ao cidadão Francisco Alves, livreiro editor no Rio de Janeiro, que para a garantia que lhe offerece a lei n.^o 496 de 1 d'Agosto de 1898, fez o competente deposito na Bibliotheca nacional, segundo a determinação do art. 13.^o da mesma Lei.

Porto Imprensa Moderna

A CORRESPONDENCIA DE FRADIQUE MENDES

FRADIQUE MENDES

(MEMORIAS E NOTAS)

I

A minha intimidade com Fradique Mendes começou em 1880, em Paris, pela Paschoa, justamente na semana em que elle regressára da sua viagem á Africa Austral. O meu conhecimento porém com esse homem admiravel datava de Lisboa, do anno remoto de 1867. Foi no verão d'esse anno, uma tarde, no café Martinho, que encontrei, n'um numero já amarrotado da Revolução de Setembro , este nome de C. Fradique Mendes, em letras enormes, por baixo de versos que me maravilharam.

Os themas («os motivos emocionaes», como nós diziamos em 1867) d'essas cinco ou seis poesias, reunidas em folhetim sob o titulo de Lapidarias, tinham logo para mim uma originalidade captivante e bemvinda. Era o tempo em que eu e os meus camaradas de Cenaculo, deslumbrados pelo Lyrismo Epico da Légende des Siècles , «o livro que um grande vento nos trouxera de Guernesey» decidiramos abominar e combater a rijos brados o Lyrismo Intimo, que, enclausurado nas duas pollegadas do coração, não comprehendendo d'entre todos os rumores do Universo senão o rumor das saias d'Elvira, tornava a Poesia, sobretudo em Portugal, uma monotona e interminavel confidencia de glorias e martyrios de amor. Ora Fradique Mendes pertencia evidentemente aos poetas novos que, seguindo o Mestre sem igual da Légende des Siècles , iam, n'uma universal sympathia buscar motivos emocionaes fóra das limitadas palpitações do coração á Historia, á Lenda, aos Costumes, ás Religiões, a tudo que através das idades, diversamente e unamente, revela e define o Homem. Mas além d'isso Fradique Mendes trabalhava um outro filão poetico que me seduzia o da Modernidade, a notação fina e sobria das graças e dos horrores da Vida, da Vida ambiente e costumada, tal como a podemos testemunhar ou presentir nas ruas que todos trilhamos nas moradas visinhas das nossas, nos humildes destinos deslizando em torno de nós por penumbras humildes.

Esses poemetos das Lapidarias desenrolavam com effeito themas magnificamente novos. Ahi um Santo allegorico, um Solitario do seculo VI, morria uma tarde sobre as neves da Silesia, assaltado e domado por uma tão inesperada e bestial rebellião da Carne, que, á beira da Bemaventurança, subitamente a perdia, e com ella o fructo divino e custoso de cincoenta annos de penitencia e d'ermo: um corvo, facundo e velho além de toda a velhice, contava façanhas do tempo em que seguira pelas Gallias, n'um bando alegre, as legiões de Cesar, depois as hordas de Alarico rolando para a Italia, branca e toda de marmores sob o azul: o bom cavalleiro Percival, espelho e flôr d'Idealistas, deixava por cidades e campos o sulco silencioso da sua armadura d'ouro, correndo o mundo, desde longas éras, á busca do San Gral, o mystico vaso cheio de sangue de Christo, que, n'uma manhã de Natal, elle vira passar e lampejar entre nuvens por sobre as torres de Camerlon: um Satanaz de feitio germanico, lido em Spinosa e Leibnitz, dava n'uma viella de cidade medieval uma serenada ironica aos astros, «gottas de luz no frio ar geladas»... Continue reading book >>




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