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A tentação do Mar   By:

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A TENTAÇÃO DO MAR

POR AUGUSTO CASIMIRO

AUGUSTO CASIMIRO

A

TENTAÇÃO DO MAR

(Poezia recitada no sarau organisado pelo Batalhão Nacional Republicano de Coimbra, no Theatro Avenida em 21 de Agosto de 1911).

COIMBRA Typ. Auxiliar d'Escriptorio 1911

De Augusto Casimiro:

Para a Vida 1906.

A Victoria do Homem 1910.

A sair breve:

Versos de Amor.

A TENTAÇÃO DO MAR

Ponho me ás vezes a escutar, atento, A voz do sangue, a voz da minha raça... E em meus olhos, então, saudosos, passa Uma visão que é um deslumbramento!

Em horas de amargura e de anciedade, Quando os meus braços tombam de fadiga, Ponho me a ouvir aquela voz antiga Religiosamente, com saudade...

É quando a noite cai silenciosa E uma tristeza oculta chora em nós, Que eu oiço aquela voz misteriosa E me esqueço a falar com meus avós!

É quando alguem me diz que tudo é morto, Que a Patria é morta e destruido o lar... Quando vagueio palido e absorto, Com amargura, e sem acreditar!

É quando eu vejo a terra abandonada, O Passado esquecido... E escuto, além, Na escuridão da noite envergonhada, Insultarem a Patria, a propria Mãe...

Quando oiço o Mar ao longe, embravecido, Bolsando ao ar os negros vagalhões, No silencio profundo e estarrecido, A cantar as estrofes de Camões...

É quando, á luz amiga das estrelas, O Mar saudoso e bom, o Mar profundo, Julga, a sonhar, que embala caravelas Que vam partir a devassar o Mundo!

Ficam se os olhos humidos, inquietos A interrogar em vão a noite escura... E eu sinto em mim a tragica amargura Dos destinos falhados, incompletos...

Mas, numa aurora esplendida e bemdita É então, é então que em mim desperta E no meu sangue novo ressuscita O espirito da raça numa alérta!

E no meu sangue, em turbilhões, a ardêr, Em orgulho e em fé e esforço altivo, Todas as glorias do Passado vivo, Todo o passado canta no meu sêr!...

... Sam primeiro os indómitos pastores, Rudes, selvagens, livres, vagabundos, Gigantescos, erguidos nos pendores Das altas serras sob os ceus profundos!...

Vejo os além de mim, longe, na bruma, Pelas encostas barbaras da serra... E olham receiosos a nevada espuma Dos abraços do Mar cingindo a Terra...

Vejo os cavando o solo... E o trigo cresce... Olha as searas de oiro, os fructos loiros!... As enxadas ao Sol, olhai, parece Que scintilam no ar como tesoiros...

Vejo os porfim á beira Mar, um dia, Ouvindo as ondas cérulas cantar... E já os tenta uma visão que erguia Aos olhos deles a canção do Mar...

Vam se á floresta... Brilham os machados... E os troncos descem, mortos, sobre os rios... Ei los, na foz que se erguem, espantados, Ei los no ar, sam mastros de navios...

Depois, ó dia grande! eu vejo o Povo da minha Terra á beira mar chorando... É o doirado romper dum tempo novo! Sam as velas, ao longe, navegando!...

Pelo mar fóra vão, pela aventura, Levam sómente a graça do Senhor! De azas abertas, pela noite escura, Nem as detém o proprio Adamastor...

Vêde os mareantes, vêde os vagabundos, Percorrendo as longinquas solidões... Dam ao mundo espantado novos mundos!.. Dam ao Futuro os versos de Camões!

Abrem a Edade nova! E o mundo inteiro Viu se maior, mais rico ao despertar, Pelo esforço do Povo marinheiro Que atravessára e dominára o Mar...

Grita em meu sangue a fúlgida epopeia, Céga me a luz a arder de tantos sois, Sóbe do Mar da Gloria a maré cheia, O Sol aureóla as frontes dos herois!

E entam em mim renasce o velho culto, O antigo amor, a vida vencedora... Continue reading book >>




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