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Santa Rita Pintor In Memoriam   By: (1890-1950)

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First Page:

CARLOS PARREIRA

SANTA RITA PINTOR

:IN MEMORIAM:

MCMXIX

Composto e impresso na Imprensa de Manuel Lucas Torres Rua do Diario de Noticias, 59 a 61 Lisboa

CARLOS PARREIRA

SANTA RITA PINTOR

:IN MEMORIAM:

MCMXIX

GUILHERME DE SANTA RITA

Maquete em terra cota

Guilherme de Santa Rita, que o despeito caraïba de um jornal, no peixe e carne de um dos seus menus necrologicos, apostila jogralmente de «um dos mais entusiasticos cultores d'essa coisa a que se chama para ahi o futurismo », Guilherme de Santa Rita era por dentro e por fóra um Artista, um representante legitimo d'essa especie de exilados , sempre ferido pelo gume das cousas circundantes, sobrepairando numa atmosfera de abstráções e desdens, ao mesmo tempo fálhos e complexos, argila e chamma, que a Vida pulveriza, como as creanças malignas as azas das borboletas.

Com a sua figura grácilmente exangue de fim de raça, com a sua voz que ora parecia ter remorsos de falar voz de himoptise, a extinguir se; ora fazia parar na rua, no mosaico dum café, no simulacro de gruta dum hall de exposições, onde certos visitantes vão e veem como peixes mortos boiando á flôr d'agua duma piscina, fazia deter, com timbres angulosos de cristaes a partir se, anatomias ruminantes de bons senhores effarés ; com o seu perfil de caule em que as andainas sacos de kappelmeister maniaco, acintosamente mal aprumadas, evocavam cerimoniaes mysticos de catafalco; com os seus cabelos dum castanho tranzido de escuro, dir se iam molhados sobre a fronte dum palôr de camelia branca, como aves da noite que congelassem contra uma estatua de ephebo num jardim; com os seus gestos hiperinquietos, estridentes, chariváricos, ilustrando os dialogos com a vertigem dum Claude Monet fixando na téla o bailado loïe fulleresco dos tons; Santa Rita era a demonstração viva, a contraprova faiscante deste aforismo de Baudelaire: « on peat vivre trois jours sans pain, mais on ne peut passer um jour sans poésie. »

Quem uma vez tocasse o tubernaculo da sua intimidade, aceitasse o convite que elle cavalheirescamente fazia para um passeio d'Arte por entre as acacias da Avenida, nalgum entardecer de láca de Florença ou, ás noites, quando os ventos ulúlam os seus leit motivos de pavor, forçosamente havia de reconhecer que calcurreava a par d' alguem muito diferente do homo vulgaris , «saco de comida» que Vinci lançou ás feras dos seus sarcasmos teogónicos e n'este paiz dos ceus de porcelana, patria bem amada da mesmice, os aristos das letras reeditam; d' alguem que nos dominios da Emoção e do Pensamento os fados sagraram gran senhor e que era como uma antêna plurivibratil, halucinatoria, aonde prendiam todos os fios de todas as exquisitezes da sensibilidade moderna.

[Nota do Transcritor: Aqui surge uma fotografia de Santa Rita Pintor.]

SANTA RITA PINTOR

CLICHÉ PEDRO LIMA

STUDIO AVENIDA DA LIBERDADE

Elle era, como quase todos os espiritos ineditos , um intoxicado d'Arte, possesso da necessidade de drapejar aos quatro ventos a toxina que o esperecia. Razão porque muitos dos seus conhecidos o achavam extravagante, bizarro e manifestavam ante a sua expansibilidade radiosa o espanto colerico da mosca que não pode atravessar a placa flamejante dum vitral e não sabe porquê .

Que fôsse possivel existir quem nesse asylo da mendicidade que é, em Lisbôa, a chamada «roda» dos intelectuaes, estalactites de café, onde a sua inteligencia, uma vez ou outra condescendia em aparecer, talvez para se documentar sobre não sei que humoristica compilação dos usos e costumes dos fósseis, que fôsse possivel existir quem, entre os superiores e idealistas , dispensasse la poésie nas 24 horas chloroticas ou congestivas do dia a dia, eis contra que Santa Rita protestava com as mais agudas das suas interjeições, agitando em elypses de mófa os longos dedos piciolados de violinista tisico, os seus dedos de bôa linhagem, cheios de expressão, vozeantes d'alma, feitos, como os de Jean Lorrain, para o ritual luminico das joias... Continue reading book >>




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